quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (VII)

Lourdes ficou paralisada, estática olhando para a porta aberta deixada por Lúcia ao sair.
O mundo estava despencando sobre a sua cabeça.
Como Gregório poderia ter feito isso? Ter um relacionamento com a sua própria irmã... Crápula.
Sua primeira reação após sair daquele estado de torpor foi o de gritar, como se seu grito espantasse de sua cabeça e de seu coração todo o ódio que sentia. Logo em seguida correu para o seu quarto, despencou na cama e começou a chorar copiosamente.
O tempo passou, as lágrimas secaram e seu espírito se acalmou. Virou-se e pegou o seu diário em seu criado-mudo e começou a transformar em palavras todas as emoções que sentia.
Enquanto forçava com raiva a caneta contra o papel, a campainha tocou incessantemente.
Levantou-se e foi atender a porta.
Foi o tempo de destravar a tranca para que Gregório entrasse desabaladamente.
Gregório virou-se, olhou para o rosto de Lourdes e percebeu que tinha chegado tarde de mais.
Os olhos inchados e vermelhos de Lourdes revelavam para Gregório o que havia ocorrido. Gregório não teve se quer tempo de tentar explicar o mal entendido que estava acontecendo, a armadilha que Lucia estava armando para eles.
Lourdes começou a tremer e falar com tanta explosão que mal concluía um pensamento e logo iniciava outro, não dando sentido as suas palavras, tão grande era a sua raiva.
As coisas ficaram piores quando Gregório, na tentativa de acalmá-la, pôs sua mão sobre os ombros de Lourdes, pedindo para que ela o escutasse.
Sua reação foi rápida como um relâmpago. Num gesto bruto e agressivo, Lourdes cortou o braço de Gregório com a caneta que, pouco antes de a campainha tocar, desabafava em seu diário.
Os dois ficaram se olhando, paralisados. Gregório olhou para o risco de sangue em seu braço, suspirou, fez uma pequena menção com a cabeça e retirou-se, fechando a porta.
Lourdes virou-se, esmurrou a porta, deslizou o corpo sobre a mesma e voltou a chorar.
Do lado de fora, debruçado sobre a pequena mureta que separava o canteiro de rosas que tantas vezes Gregório colheu para decorar as caixas de bombons que presenteava Lourdes, buscava um meio de rever esta situação. Sua raiva com Lucia fazia sua mente fervilhar. Com seus punhos cerrados, saiu desesperadamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário