quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (IX)

Tudo aquilo havia acontecido a tanto tempo que parecia apenas a lembrança de um conto de terror de Edgar Alan Poe.
O que se seguiu após a morte de Lúcia foi uma seqüência de episódios que, como um rolo compressor, passou por cima de Gregório e o efeito foi avassalador.
A polícia descobriu que pelas marcas encontradas no corpo de Lúcia na autópsia, o assassino só poderia ser um homem e todas as suspeitas pairaram sobre Gregório.
Uma série de fatos e um advogado incompetente levaram-no para a penitenciária estadual onde ficou preso por cerca de trinta anos.
Ao sair, sua vida havia praticamente acabado e só lhe restava esquecer o passado e começar uma vida nova.
Mas a presença de Lourdes em sua casa abriu aquelas feridas que apesar de cicatrizadas ainda doíam.
A morte de Lúcia ainda era um mistério para ele. O verdadeiro assassino nunca fora encontrado e Gregório já estava resignado em descobrir a verdade.
Porém Lourdes chegou com uma notícia que ele não esperava. A notícia que nunca mais ele ficaria sozinho, pois havia agora em sua vida Lúcio, seu filho. Sim, seu filho herdara o nome de sua tia, como uma lembrança de nada poderia ser esquecido.
Lourdes estava grávida quando Gregório fora preso, mas nunca lhe contou. Não queria que seu filho soubesse que seu pai estava preso acusado de assassinato.
Agora, esparramado em sua velha poltrona, Gregório descobria que era pai e que ainda havia motivos para viver e mais: aquela velha obsessão em descobrir o assassino de Lúcia voltava à tona com toda a força. Era para ele questão de vida ou morte descobrir quem, matando sua cunhada, acabara com sua vida o deixando separado da carne de sua própria carne, do sangue de seu sangue por tanto tempo.
Mas esta é uma outra história...
FIM
Aqui é o final do conto.
Espero que tenha acompanhado e gostado.
Não deixe de fazer comentários. Essa é uma forma que temos para buscarmos a nossa melhoria contínua.
Grande Abraço,
Eduardo Lesnok e F. Fernandes

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (VIII)

Lourdes acordou assustada com o toque insistente da campainha.
Que horas eram? Meu Deus já é quase meio-dia, percebeu ao olhar para o relógio em seu criado mudo.
A campainha não parava e foi uma Lourdes irritada que atendeu a porta.
Que os senhores querem?
Dois homens vestidos em calça jeans, com camiseta e óculos escuros estavam postados em sua porta.
Um deles tirou os seus óculos Ray Ban.
- Bom dia. A senhora é Lourdes Gouveia.
- Sou eu sim, em que posso ajudá-los?
- Inspetores Jaime e Gouveia – disse apresentando suas credenciais.
- Podemos entrar?
- Sim, claro. Entrem e se sentem – disse apontando os sofás. Mas, aconteceu alguma coisa?
- A senhora conhece esta pessoa? – disse Jaime, que parecia ser o chefe, apresentando a foto de uma mulher.
- Claro, é minha irmã.
Os detetives se entreolharam.
- Lamento dona Lourdes, mas a sua irmã foi encontrada morta ontem no centro, próximo ao largo do Arouche e precisamos que a senhora nos acompanhe até o IML para o reconhecimento do corpo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (VII)

Lourdes ficou paralisada, estática olhando para a porta aberta deixada por Lúcia ao sair.
O mundo estava despencando sobre a sua cabeça.
Como Gregório poderia ter feito isso? Ter um relacionamento com a sua própria irmã... Crápula.
Sua primeira reação após sair daquele estado de torpor foi o de gritar, como se seu grito espantasse de sua cabeça e de seu coração todo o ódio que sentia. Logo em seguida correu para o seu quarto, despencou na cama e começou a chorar copiosamente.
O tempo passou, as lágrimas secaram e seu espírito se acalmou. Virou-se e pegou o seu diário em seu criado-mudo e começou a transformar em palavras todas as emoções que sentia.
Enquanto forçava com raiva a caneta contra o papel, a campainha tocou incessantemente.
Levantou-se e foi atender a porta.
Foi o tempo de destravar a tranca para que Gregório entrasse desabaladamente.
Gregório virou-se, olhou para o rosto de Lourdes e percebeu que tinha chegado tarde de mais.
Os olhos inchados e vermelhos de Lourdes revelavam para Gregório o que havia ocorrido. Gregório não teve se quer tempo de tentar explicar o mal entendido que estava acontecendo, a armadilha que Lucia estava armando para eles.
Lourdes começou a tremer e falar com tanta explosão que mal concluía um pensamento e logo iniciava outro, não dando sentido as suas palavras, tão grande era a sua raiva.
As coisas ficaram piores quando Gregório, na tentativa de acalmá-la, pôs sua mão sobre os ombros de Lourdes, pedindo para que ela o escutasse.
Sua reação foi rápida como um relâmpago. Num gesto bruto e agressivo, Lourdes cortou o braço de Gregório com a caneta que, pouco antes de a campainha tocar, desabafava em seu diário.
Os dois ficaram se olhando, paralisados. Gregório olhou para o risco de sangue em seu braço, suspirou, fez uma pequena menção com a cabeça e retirou-se, fechando a porta.
Lourdes virou-se, esmurrou a porta, deslizou o corpo sobre a mesma e voltou a chorar.
Do lado de fora, debruçado sobre a pequena mureta que separava o canteiro de rosas que tantas vezes Gregório colheu para decorar as caixas de bombons que presenteava Lourdes, buscava um meio de rever esta situação. Sua raiva com Lucia fazia sua mente fervilhar. Com seus punhos cerrados, saiu desesperadamente.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (VI)

Lourdes estava preocupada.
Gregório não a visitou na noite anterior e até àquela hora do dia não tinha nem ao menos telefonado. Sentia que algo de estranho estava acontecendo.
A campainha toca.
- Ah, é você Lucia! Desculpe-me pela surpresa, mas pensei que era o Gregório. Sabe, ele não deu notícias e estou um pouco preocupada. Mas... senta aí – disse Lourdes apontando para o sofá, sem notar a expressão de sua irmã.
- Você não precisa se preocupar com o Gregório, não, Lourdes. Ele está muito bem – disse Lucia com um tom sarcástico na voz.
- É? Você falou com ele hoje? Onde ele está?
- Falei sim. Mas não só hoje. Nós conversamos a noite inteira...
Um silêncio absurdo varreu a sala enquanto Lourdes tentava entender o que a irmã estava falando.
- Como assim, a noite inteira? – com a voz trêmula demonstrando insegurança.
- Estivemos juntos, Lourdes. Juntos a noite inteira. Ele me convidou para sair, bebemos um pouco de vinho e depois fomos para a cama.
Sua maneira de falar, ao contrário da de sua irmã mais velha, era segura e enfática.
Lucia foi muito ligeira!
Ela sabia que Gregório iria procurar Lourdes e contar tudo. Um homem de caráter como ele não deixaria esta história ir mais adiante. Sua idéia era pegá-lo de surpresa, não dar tempo a ele.
Lourdes precisou sentar de tanto que suas pernas tremiam. Aquela revelação desmoronou seu castelo. Não era possível, como ele foi capaz de fazer isto com ela.
- Há quanto tempo vocês vêm mantendo este romance. Com a voz tremula perguntou Lourdes.
- Me diga. Agora quero saber de todos os detalhes Lucia. Vamos diga, diga...
Lucia não perde a classe. Manteve-se sentada com toda a elegância. Só começa a falar depois de se ver no seu pequeno espelho de seu porta-batões.
- Lourdes. Eu venho há muito tempo dizendo para o Greg...
- Greg!... Com a voz embargada Lourdes leva as mãos aos olhos na tentativa de reter as lágrimas que já começavam a deslizar em sua face.
- Acalme-se minha irmã...
- Não venha com esta de minha irmã. Você está roubando de mim o homem que eu amo! Grita Lourdes.
Cinicamente Lucia se levanta, pega a bolsa e, com um pequeno aceno despede-se da irmã, deixando-a em prantos.