terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (V)

Seu caminhar pelas desertas ruas da cidade o levava a lugar algum. Gregório jamais imaginou que este encontro pudesse terminar desta forma, em sua mente, uma conversa séria e bem clara com Lucia sobre seus sentimentos e intenções com Lourdes, seria o suficiente para Lucia entender e parar com as insinuações que vinha fazendo. Jamais imaginou este lado forte e possessivo dela.
Parado, em uma esquina, se perguntou: E se Lucia revelasse este encontro à Lourdes? Meu Deus! Como pude ser tão ingênuo marcando este encontro às escondidas com Lucia.
Gregório percorre as ruas do centro da cidade madrugada adentro. Vários foram os bares que parou tentando buscar uma forma de corrigir este desastroso encontro.
Então, Gregório decide tomar uma postura mais firme. Ele não pode se sentir dominado pela astúcia de Lucia. Abrirá o jogo com Lourdes, contará tudo o que está ocorrendo, abrirá seu coração para a mulher com quem deseja realmente ficar. Lucia está se tornando uma fantasia em sua mente, sua beleza e charme estão confundindo os seus sentimentos.
Está decidido. Ela o compreenderá. Irá entender o que está acontecendo e juntos irão desbancar Lucia. Ele não suporta mais levar adiante esta situação. As coisas estão tomando um rumo onde ele logo não terá mais controle. Antes que isso aconteça, é melhor revelar tudo a Lourdes.
Seus pensamentos buscam a melhor maneira de como fazer a revelação sem que Lourdes o interprete mal e não lhe dê a chance de uma segunda tentativa de explicação, mas ao mesmo tempo a imagem da linda mulher que é Lucia não sai de sua mente, ela é uma espetacular mulher, objeto de desejo de qualquer homem. As coisas se confundem em sua cabeça não permitindo que raciocine com clareza.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (IV)

Gregório engoliu seco o restante de vinho que tinha em sua taça, na esperança de aliviar sua tensão, mas foi uma tentativa frustrada, pois quase se engasgou, tendo que solicitar ao garçom mais uma taça.
Lucia rapidamente disse que o acompanharia com o vinho, deixando Gregório mais embaraçado, pois não era normal uma mulher beber em público, mas Gregório não estava em condições de contestar coisa alguma.
A voz macia de Lucia o hipnotizava, cada vez mais a situação fugia de seu controle, até que Lucia lhe pôs em “xeque”:
- Então, Greg, por que, enfim, você marcou este encontro?
Greg? Ela disse Greg? Até mesmo Lourdes só o chamava de Gregório. Somente seus amigos mais íntimos se dirigiam a ele daquela forma. Isto era um mau sinal. Ela tinha ido direto ao ponto e o deixara sem chão.
- Sabe, Lúcia, sabe como é, eu... Eu precisava conversar com você sobre um assunto...
- Vamos. Fale Greg. Por que está tão reticente? Você não é assim... – disse Lúcia com um sorriso malicioso.
- Lúcia, não sei se estou confundindo as coisas, mas sabe, eu amo muito sua irmã e tenho sentido que você... Como posso dizer? Você...
- Estou dando em cima de você. É isto mesmo. Você tem razão. Greg, não posso me conformar que você esteja apaixonado por minha irmã. Ela não lhe merece. Eu é quem sou mulher para você.
Pronto. Agora não havia a menor sombra de dúvida. Realmente o pior acontecera. O impacto das palavras dela chegou a ele como um soco no peito. Quase sem fôlego e percebendo a gravidade da situação e já prevendo onde aquilo poderia chegar, Gregório decidiu dar o contra-ataque.
- Lúcia, eu quero deixar uma coisa bastante clara para você. Eu AMO a sua irmã. É com ela que vou casar e com ela vou viver até o resto de minha vida. E Lourdes sente a mesma coisa. Nada nem ninguém vai impedir a nossa felicidade. Peço a você encarecidamente que pare com esta brincadeira sem gosto. Você está parecendo uma menininha que quer a bonequinha da irmã mais velha. Isto não é uma brincadeira nem um joguinho de crianças, Lúcia. Desista. Nada nem ninguém vai me fazer separar de sua irmã, muito menos você.
Agora quem acusava o golpe era Lúcia. A expressão terna e sensual de Lúcia se transformou em uma máscara vermelha de ódio. Seu olhos ficaram injetados de sangue e, sem se importar com as pessoas que estavam em volta, ela deu um murro na mesa tombando as taças de vinho.
- Você será meu Gregório. Ouça o que estou falando e grave nesta sua mente. Você será meu. – gritou a bela mulher levantando-se e correndo para fora do café.
Pasmo! Este foi o estado que Gregório ficou com a atitude de Lucia. Ele nunca imaginou que ela teria esta reação e principalmente da maneira agressiva como fez.
Os olhares em sua direção o deixaram ainda mais inibido. Suas mãos tremiam tanto que quase não foram capazes de levantar as taças de vinho caídas. As marcas deixadas pelo vinho caído sobre a toalha branca, simbolizavam perfeitamente a raiva e agressividade de Lucia.
Como ficaria o seu relacionamento com Lourdes sabendo ele agora das intenções de Lucia? Esta era a pergunta que não parava de açoitar a sua mente. Sem olhar para os lados, levantou-se, dirigiu-se ao caixa, pagou sua conta e saiu.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (III)

Lucia chegou após quarenta minutos de atraso, bem no momento em que Gregório tomara a decisão de ir embora e deixar tudo pra lá, deixando o resto de vinho em sua taça. Mas ao ver a jovem e bela mulher chegar ele não tinha mais opção. Agora era enfrentar a situação e deixar tudo em pratos limpos.
Ela chegou com um sorriso cativante e malicioso. Seria malicioso ou era coisa da cabeça dele? Como ela era linda... Gregório nunca tinha reparado na beleza de Lúcia.
Ela veio direto até a sua mesa, postada estrategicamente em um ponto onde Gregório podia observar todos que entravam.
Seu coração pulsou mais forte, não sabia se era pela beleza e encanto de Lucia ou se era pelo cenário que estava se formando. Gregório tentava aparentar calma e controle da situação, mas seus gestos e o suor correndo pela têmpora demonstravam um outro quadro.
Lucia sorria, parecia brincar com a situação. Gregório cada vez mais se sentia desconfortável.
Ela sentou com charme e sensualidade. Pôs sua bolsa vermelha delicadamente sobre a mesa, vermelho este que combinava perfeitamente com o batom que delineava seus grossos e vistosos lábios. A imagem que Gregório vislumbrava através do pronunciado decote no vestido de Lucia o deixava ainda mais impaciente e confuso.
Gregório engoliu seco o restante de vinho que tinha em sua taça, na esperança de aliviar sua tensão, mas foi uma tentativa frustrada, pois quase se engasgou, tendo que solicitar ao garçom mais uma taça.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (II)

Lourdes era tudo em sua vida. Ele tinha plena certeza que seria com ela que formaria uma família. A família de seus sonhos. Crianças pelo quintal, passeios matinais aos domingos no parque e piqueniques.
Gregório chegava até ver estas cenas em seus pensamentos, tamanha a certeza desta união. Mas a vida prega peças! Quando você menos espera o rumo de sua vida esta apontando para outro lado, o vento sopra para uma direção e te conduz sem que você se de conta, e quando percebe, lá está você, perdido e vendo tudo escapar entre seus dedos.
Várias foram às vezes que Gregório notou olhares maliciosos de Lucia, irmã mais nova de Lourdes, em sua direção, mas evitou retribuir e até mesmo desconsiderou, preferindo achar que era apenas impressão sua, mas isto foi ocorrendo com freqüência, até que um dia decidiu ter uma conversa em particular com ela, sem que Lourdes soubesse.
Marcaram o encontro em um café no centro de São Paulo. O lugar reservado e intimista, pensava Gregório, seria um ótimo lugar para eles conversarem sobre o assunto tão delicado.
Sentou, e pediu uma taça de vinho tinto.
Ele não sabia como iniciaria a conversa. E se fosse apenas uma coisa de sua cabeça? E se ela estivesse sendo apenas delicada e ele estivesse confundindo amizade com assédio? Não. Sua posição já estava tomada e ele tiraria a dúvida que o estava incomodando há algum tempo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (I)

Caro leitor,
A cerca de três meses eu e o meu amigo escritor Eduardo Lesnok, autor do livro “Santiago de Compostela – um caminho de luz”, iniciamos a formatação de um projeto que surgiu em um bate-papo num almoço em um restaurante do bairro da Luz.
A idéia do projeto é que escrevêssemos uma história a quatro - mãos e sem que um combinasse previamente com o outro o que seria escrito. Um iniciaria um parágrafo e o outro continuaria a história.
Apesar do tempo que demoramos em escrever (sempre falávamos que nosso editor não tinha estipulado o prazo...) o resultado foi bem surpreendente.
Pois bem, a partir de agora irei apresentar aqui em meu blog o texto resultante deste projeto. Espero que gostem e comentem.
Ah! Não vou postar todo o texto de uma vez. Você o receberá em doses homeopáticas.
Em tempo: Para aqueles que estão interessados no livro “Santiago de Compostela – um caminho de luz”, ele pode ser comprado pelo site http://www.santiago-umcaminhodeluz.com.
Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera.
O céu estava pintado de tantas tonalidades de azul que nem mesmo o melhor dos pintores poderia reproduzi-las em suas telas.
A temperatura estava amena, como quase sempre acontece nas manhãs da cidade de São Paulo nesta estação do ano.
O sol brilhava uma luz amarelo-esbranquiçada, e estava difícil se manter com os olhos abertos sem a proteção de óculos escuros.
O verde das árvores se destacava com todo este pano de fundo de cores primaveris. Os pardais faziam sua algazarra matutina, numa mistura de cantos e piados tão intensos que despertavam até mesmo o mais sonolento dos moradores.
Mas nada tocava o coração daquele homem.
Para ele o cenário estava pintado em uma escala de tons de cinza que iam do preto ao branco. Não era daltônico, mas a sua mente estava fechada para as belezas da vida.
A visita que recebera na noite anterior o deixara sem chão. O mundo parecia desabar sobre sua cabeça. Aquela senhora de cabelos dourados bem penteados, colar com enormes pérolas, trajando um alinhado tailleur bordô, arrancou de si um passado que achava estar enterrado. Suas pernas tremeram a ponto de escorar no velho móvel que sustenta retratos de uma vida distante e que não imaginava mais ser capaz de um dia se tornar presente.
A poltrona gasta pelo tempo, encarregou-se de acolhê-lo diante da forte e surpreendente notícia.
A elegante senhora dirigiu-se até a cozinha para lhe trazer um copo com água. Apesar de tantos anos ela ainda se recordava muito bem do caminho. Nada parecia estranho para ela.
Como o mundo é estranho. Como a cabeça do ser humano é mais estranha ainda. Até aquela noite ele era um homem solteiro, de meia-idade, livre para sair no momento em que quisesse ou ficar em sua casa lendo um bom livro. O controle de sua vida estava em suas mãos.
Mas a presença dela mudou tudo.
Todas as lembranças do passado surgiram como grilhões cercando sua liberdade.
A presença daquela bela senhora trouxe a ele um sentimento de paralisia e resignação. Estava congelado de terror.
Eles se conheceram a mais de trinta anos. Eram jovens e se apaixonaram assim que se viram pela primeira vez.
Sua paixão foi avassaladora e as horas eram contadas minuto a minuto só esperando o momento em que ficariam sós.
O mundo para eles era algo que destoava da realidade. Viviam quase em um cenário surreal de amor e prazer.