quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera (I)

Caro leitor,
A cerca de três meses eu e o meu amigo escritor Eduardo Lesnok, autor do livro “Santiago de Compostela – um caminho de luz”, iniciamos a formatação de um projeto que surgiu em um bate-papo num almoço em um restaurante do bairro da Luz.
A idéia do projeto é que escrevêssemos uma história a quatro - mãos e sem que um combinasse previamente com o outro o que seria escrito. Um iniciaria um parágrafo e o outro continuaria a história.
Apesar do tempo que demoramos em escrever (sempre falávamos que nosso editor não tinha estipulado o prazo...) o resultado foi bem surpreendente.
Pois bem, a partir de agora irei apresentar aqui em meu blog o texto resultante deste projeto. Espero que gostem e comentem.
Ah! Não vou postar todo o texto de uma vez. Você o receberá em doses homeopáticas.
Em tempo: Para aqueles que estão interessados no livro “Santiago de Compostela – um caminho de luz”, ele pode ser comprado pelo site http://www.santiago-umcaminhodeluz.com.
Um homem acordou de mau humor naquele lindo dia de primavera.
O céu estava pintado de tantas tonalidades de azul que nem mesmo o melhor dos pintores poderia reproduzi-las em suas telas.
A temperatura estava amena, como quase sempre acontece nas manhãs da cidade de São Paulo nesta estação do ano.
O sol brilhava uma luz amarelo-esbranquiçada, e estava difícil se manter com os olhos abertos sem a proteção de óculos escuros.
O verde das árvores se destacava com todo este pano de fundo de cores primaveris. Os pardais faziam sua algazarra matutina, numa mistura de cantos e piados tão intensos que despertavam até mesmo o mais sonolento dos moradores.
Mas nada tocava o coração daquele homem.
Para ele o cenário estava pintado em uma escala de tons de cinza que iam do preto ao branco. Não era daltônico, mas a sua mente estava fechada para as belezas da vida.
A visita que recebera na noite anterior o deixara sem chão. O mundo parecia desabar sobre sua cabeça. Aquela senhora de cabelos dourados bem penteados, colar com enormes pérolas, trajando um alinhado tailleur bordô, arrancou de si um passado que achava estar enterrado. Suas pernas tremeram a ponto de escorar no velho móvel que sustenta retratos de uma vida distante e que não imaginava mais ser capaz de um dia se tornar presente.
A poltrona gasta pelo tempo, encarregou-se de acolhê-lo diante da forte e surpreendente notícia.
A elegante senhora dirigiu-se até a cozinha para lhe trazer um copo com água. Apesar de tantos anos ela ainda se recordava muito bem do caminho. Nada parecia estranho para ela.
Como o mundo é estranho. Como a cabeça do ser humano é mais estranha ainda. Até aquela noite ele era um homem solteiro, de meia-idade, livre para sair no momento em que quisesse ou ficar em sua casa lendo um bom livro. O controle de sua vida estava em suas mãos.
Mas a presença dela mudou tudo.
Todas as lembranças do passado surgiram como grilhões cercando sua liberdade.
A presença daquela bela senhora trouxe a ele um sentimento de paralisia e resignação. Estava congelado de terror.
Eles se conheceram a mais de trinta anos. Eram jovens e se apaixonaram assim que se viram pela primeira vez.
Sua paixão foi avassaladora e as horas eram contadas minuto a minuto só esperando o momento em que ficariam sós.
O mundo para eles era algo que destoava da realidade. Viviam quase em um cenário surreal de amor e prazer.

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